Sede do cliente, 16h.
Primeiro foi a dificuldade de estacionar. Por que fabricam tantos carros? Cadê o metrô????
Depois, o sol quente. Sabe aquele sol que você sonha em um domingo de verão? Pois é. Ele mesmo, mas em plena quarta-feira.
Esse sol me acompanhou impiedosamente todo o trajeto até a recepção, junto com Mauro.
Primeira reunião dele com o cliente e uma recepção tórrida. Prenúncio do que tínhamos pela frente.
A cada passo um copo de água gelada se materializava em minha frente.
Na recepção:
- Oi, boa tarde. Água, por favor?
Então veio a resposta que daria o tom de toda a tarde:
- Água eu tenho. O que eu não tenho é copo. Os de vidro estão sujos e os de plástico acabaram.
Só se vê na Bahia. Era melhor o velho e bom: “Tem, mas acabou”.
Quando sentamos, Mauro filosofou: “É melhor ter muita certeza se quiser usar o banheiro”.
O clima ainda não era de tensão. Quase tive uma crise de riso.
Ficamos sedentos aguardando a reunião. Mas era sede mesmo. Não tinha ninguém ansioso para discutir alterações da capa do material. Nem Mauro que era o ilustrador.
Longos minutos. 10 minutos. Sede.
Se aproxima uma comissão de 3 mulheres. Elas “aproveitaram” a ida do “pessoal da agência” e nos raptaram para uma outra sala.
Queriam discutir a demanda de uma cartilha. Ótimo. Mas a cartilha não tinha ainda nem texto pronto.
A cliente insistiu:
- Vocês podem começar a arte sem o texto mesmo, porque precisamos para quinta feira da semana que vem.
Respiro fundo. Sede.
Explico calmamente que para fazer a arte da cartilha é preciso o texto. Repetimos isso algumas vezes, ora eu, ora Mauro, mudando o jeito de falar para ver se funcionava, mas não adiantava.
Elas nos levam para a sala de uma das diretoras, que prefere que a agência espere do lado de fora enquanto elas confabulam.
Ficamos em pé do lado de fora. Calor. Sede. Sede. Calor. Sede.
Lá dentro, o trio e a diretora falam e gesticulam sem parar. Só imagino os diálogos.
Saem da sala com uma brilhante solução: ao invés de uma cartilha, um folder. Menos mal, agora é só criar o visual do folder.
Mas elas se anteciparam e resolveram adiantar o trabalho de Mauro.
A cliente pegou uma folha e em segundos começou a surgir o layout do folder.
A cara de Mauro observando a cliente valia um milhão de dólares naquele momento. Vocês não têm noção. Ganhei meu dia.
No final, ela tinha criado TUDO naquela folha de papel: capa, formato, texto. Pra que melhor?
Só faltou o arquivo finalizado em CD.
Seguimos pelas escadas. Mauro só gesticulava querendo dizer: “Só tem louco aqui”.
No meio do caminho, recebemos um recado que outra pessoa também precisava falar com a agência. Mais demandas: duas cartilhas, cada uma com 50 páginas para daqui a 14 dias. Moleza. A gente faz, “basta o texto”, eu disse.
A essa altura Mauro não emitia mais nenhum som.
Quando saímos da sala, ele praguejou sem parar: “Pro médico ninguém diz nada, pro engenheiro ninguém diz nada, mas pro criativo. Ninguém respeita! Tão pensando que a gente faz pastel? blá blá blá blá blá “. Pobre Mauro. Se ele soubesse.
Finalmente fomos ao encontro da bam bam bam, a razão de estarmos ali, a nossa reunião da tal capa do material.
Só que ela não estava.
Mauro já não sabia mais do que reclamar. Se do calor (não tinha ar-condicionado em nenhum lugar!), das reuniões, dos atrasos, da espera ou do bolo que levamos.
Acho que naquela hora o vi até sentir saudades da agência.
E mais ainda. Por uma fração de segundo, achei até que ele teve pena de mim, e de todos os profissionais de atendimento.
Esperamos mais meia hora até que uma alma, bastante simpática, nos pediu desculpas e disse que nos atenderia para adiantar o trabalho.
Durante a longa conversa, a criatura largou cada pérola, mas Mauro, surpreendentemente, apesar de tudo, levou a reunião até o final com a simpatia típica de um profissional de atendimento.
Na saída, se eu entrar em detalhes de tudo que ele se queixou, tomaria muito tempo, mas a sua última frase me fez refletir o quanto nosso trabalho é importante: “Vocês passam por cada uma, viu? Eu não levo jeito para isso, não”.
Acho que naquela fração de segundo que vi, lá atrás, ele teve pena dos profissionais de atendimento mesmo.
Mauro, adorei a tarde. Se prepare que toda semana tem reuniões assim (risos).
*Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, viu?